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BALAIO PORRET@ 343
Rio, 21 de setembro de 2003
Total de assinantes: 621

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"Fazer um filme é quase como viver um amor". (Marcello Mastroianni)
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A LITERATURA BRASILEIRA DE HOJE

E A POESIA DE DENISE VIANA

por MAURO GAMA

 

Na escassa crítica literária do Brasil de hoje, os conceitos são frágeis, e
os preconceitos robustos. Mais do que em outras fases, além da enorme
diversidade de tendências, há também uma rígida divisão social, e
psicossocial. Existe mesmo uma literatura oficial e oficiosa, que oscila
entre o conservadorismo, digamos, intransigente, e a vanguarda
oportunista, bem-ajustada, como um ex-ripão de crina bem-aparada e
engravatado. Essa literatura, obviamente, detém um quase monopólio
comercial das editoras. Do outro lado – talvez do abismo –, longe das
luzes, dos badalos e dos bagos, ressurge uma literatura marginal, em
folhetos de papel ou eletrônicos – entre os quais a dádiva do Balaio –
inventiva, intensa, rebelde por natureza. No caso da poesia, é bom
lembrar que grande parte dos autores significativos, em todos os
tempos, andaram por essa trilha.

Uma autora baiana há anos no Rio de Janeiro, Denise Teixeira Viana, vêm-
se divulgando desse modo: tem uma folha alternativa, Leiamigos (mais de
400 números publicados) e um site na Internet
(www.deniseteixeiraviana.com), editou em 96 Ciladas pela Achiamé e
agora nos envia um folheto, Marsupial, com apenas nove poemas. Há
quem só a admire – ou quem só a rejeite – pelo “erotismo ilimitado”que já
lhe apontaram, em abordagem equívoca de seu texto. O que nos salta
aos olhos não é bem isso: é a forma – muito construída, embora sempre
de ímpeto oral – como seus poemas denunciam exatamente os limites, as
carências, a dor da afeição física, ainda que só acreditem nela.

Radicalmente antirromântica (o que pode soar sem novidade mas é extraordinário,
quando vemos quanto fungo romântico ainda se cria na literatura), Denise designa
obsessivamente o “precário”, o “podre”, o acidental, o mórbido que há no sexo, e na
vida como um todo. Para isso, não teme o episódico e vil do dia a dia (“te negociar na
sucessão de aftas/ óvulos nódulos módulos”). Na verdade, é como se ela fizesse tudo
para resgatar essas limitações, vencê-las e dominá-las na escrita, mas a todo instante
elas emergissem de novo e a autora tivesse de reincorporá-las, com um tom de rogo e
de protesto, porém sem exposição biográfica: comunicando uma experiência coletiva,
um dilema crucial da espécie humana (“seremos pós/ na mesma geada/ seremos sós/
na virada do século/ seremos nada na invernada/ no espéculo/ seremos nós enfim sós”)

É uma poesia de tensão e angústia, existencial e expressionista, em que o
erotismo é uma espécie de "veículo", inclusive nos sentidos pictórico e
farmacológico. Daí a anatomia – e a patologia – evidentes de seu vocabulário
“sujo”, terrestre, em meio à captação toda orgânica de um cotidiano vivido
visceralmente, na relação imediata e sem comprometimento. Tramando o texto
com rimas internas e entrelaçadas (como em “compulsão de colhão/ comua
falcatrua”, ou “cordatas de cachês michês magnatas”), Denise domina sutilezas
como a de encadear palavras em que omita precisamente a que "explicaria" o
conjunto. Além do que é decisivo, para essa sua alquimia, lidar com um intimismo
não confessional – ao contrário do de Leila Míccolis, ou do de Ana Cristina César – ,
o que lhe enriquece esteticamente o poema. Denise trabalha, assim, uma poética
que, quanto mais indireta e metonímica, mais forte e convincente se torna, mais
substância e paixão nos passa, aqui e ali como se explodisse: “a fervilhar de vícios
equivalentes suplícios/ desmanchar na vidraça/ arruaça de relâmpagos e vidrilhos”.

 

Balaio Porreta

 

  

 



    

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