Pontus fracus

vou me danar
me acusar
me curar
e acelerar o teu beijo
vou me entrosar na tua fome
me come
me fere
me espeta com a agulha
me arrasta
me afasta do teu períneo
me rompe o vaso sanguíneo
me chupa
me amarra
me sangra de dor
que amanhã serei santa
artista
poetisa
me pisa
me alisa com as tuas mãos sequiosas

vou me esconder
me derreter
me socorrer
e recolher teu cansaço
vou me surpreender no regaço
me enrosca
me arranca
me estanca com a gaze
me soca
me troca por outra mulher
me corta com o talher
me devora
me espanca
me limpa as nádegas
que amanhã serei fresca
incesto
o avesso do teu sexo
me surra
me empurra com o arpão

vou parir aos gritos
aos berros
depois me dou
me cospe
me queima
me sacode
me ama
me atira em chamas
me dilata
me acode
me fode
me deflora
me explora
que amanhã serei nada
na tua temporada de outono

vou me dividir na tua zanga
me funga
me afunda
me arrasa
me tosa
me coça
me assanha
me irrita
me agita
me treme
me espreme
que amanhã serei moça
no vento
no leme
no assento
no corrimento

sai de mim
tentação
desalento
excremento
masturbação
sofrimento

sai de mim
agonia
tesão
menstruação
hemorragia
tampão
hímen

vou me matar


I Concurso Nacional de Poesias Vinícius de Moraes para Servidor Público, Editora Nova Fronteira, RJ, 1984